Ribombem as hostes ao vento que pela montanha descende, a Fénix adormecida nos séculos de lava, renasce! Águia acutilante no seu pio de asas abertas. Águia que fere o tempo das palavras desmembradas. Águia de bico aguçado imberbe. Luz, na alvorada disfarçada por um telhado que desfere o horizonte em retalhos de sombras incertas. Serve este renascer pela memória ainda não construída, para que do fogo se purifiquem os sons crepitantes dos dedos encostados nas guitarras. O fogo transformará as chamas em cinzas e delas as palavras renascerão, sujas, imundas, como os olhos de lascívia que as percorrem. Esses vossos olhos que tudo pesam na balança do julgamento discernido. A Fénix renasce no turbilhão da pele arrepiada, arrependa-se o carrasco que lhe levou a chama num dia que o já não é. Sobraram vestígios, ficarão golpes de garras entesadas nos membros de orgulhos vítreos. Na verdade, é apenas fogo que se consome no ritmo da pena. Quando acabar de novo o tempo deste voo, sucumbirão penas nos lábios cerrados e os sons, ecoarão livres nas montanhas do amanhecer.
Serve este pio poético -ainda enfraquecido -, para que dele, sejam as mais puras melodias a serem ouvidas. Atentai-vos a cada canto soltado ao vento. As vozes querem-se duras como as rochas atiradas no monocórdio dos palcos vazios. E ressaltam, ressaltam, marcando os fios de água abandonados no escuro dos corpos cansados. Há uma luz apagada e o calor ainda emana, a noite alongou-se nas vozes agora cansadas, os corpos cedem lugar ao vazio, um último pio nos olhos abertos. E renasço.
Estas inconsistências no discorrer de pensamentos inúteis quando deveria apenas falar-te são cada vez mais frequentes, muitas vezes é ao falar-te que elas ocorrem. Fazes-me ser inconsistente e continuas na tua cadeira com os membros deslocados ou o corpo deslocado e sorris. Não sei como o consegues, juro-te que não sei, mas sorris sempre quando não deverias sorrir, as situações mais estranhas apresentam-se sempre irónicas na tua cabeça. A morte era uma ironia que te fazia mostrar o marfim dos dentes e elevar-te as bochechas aos olhos. Nos momentos em que todos os corpos ausentavam-se e a mente cessava, tu sorrias. O corpo jazia na penumbra dos choros engolidos a seco, o silêncio espreitava nas covas penetrantes das orbitas dos presentes, profundas, marcadas, tristes, e gritavam saudades daquela cujo frio dilatava a frágil luz verde que, atravessava os pequenos vidros coloridos da parede onde o corpo horizontal ausentava-se. Ausentava-se e cravava-se nas carnes rasgadas que semeavam sangue. No ritmo entorpecido as flores murchavam em decrescendo mudo, marcado pelos soluços contidos de todos os corpos que em uníssono carpiam. O coro de corvos negros sentados, de olhar perdido na cruz gigante que se impunha sobre o medo do pensamento batido. O movimento contrário ao do sentido original do relógio. O movimento das mãos em prece sobre o peito. O murmúrio. E um soluço. As partes sucedem-se em frente e verso, e estes versos eram demasiado deslocados da frente translúcida e borrada. Obscurecidos de dor assim se arrastavam. Eu era dor e o frio do mármore fazia doer-me o corpo. A dor começava no osso esquerdo da perna, depois as pontadas iniciavam-se no joelho e esquecia-me da razão que me levava àquele sítio. As dores eram hereditárias, disseram os médicos quando em miúdo todo o corpo rangia, e a dor, a dor invadia o esqueleto de que nunca tivera memória. O corpo jovem era somente carne esfarrapada contra o cimento, numa queda de bolas rematadas entre o entardecer de gargalhadas infantis. Se pudesse pintar um desses entardeceres, seriam dourados, como o porco de loiça que meteste sobre a mesa-de-cabeceira. O porco de loiça com ar estúpido, e cujos estilhaços apareciam claros na minha mente todas as vezes que olhava para a dita peça decorativa. Talvez nos estilhaços tenha ficado uma silhueta de uma cicatriz de há muito. Talvez, e nada que não esta dor no corpo.
Por vezes é apenas um raio de luz que me desperta, outras vezes é o som da sombra do teu corpo quando na janela os raios nocturnos quebram as frechas. O teu corpo em movimento, ajeitando os cortinados negros para que nenhum raio nos ilumine na noite do nosso sono. Digo do nosso sono, porque o corpo funde-se num abraço pesado, paralisando movimentos já de si escassos. Por vezes, apetece-me tapar-te o nariz para que cesses de respirar em definitivo, apertar-te as narinas e retirar-te o fôlego sempre certo, tão certo quanto o dia que nasce depois de a noite falecer. Mas depois olho-te através do escuro e relembro o teu rosto ainda marcado no espelho que trago no pulso. Nada faço, viro-me para o meu lado e adormeço, depois, o peso do teu corpo em cima de mim, e um olho. Não sei o porquê, mas vejo sempre um olho e depois o outro, como se no focar da vista ainda em repouso, fosse apenas permitido o teu olho castanho. Esfrego os olhos, a vista melhora. Continuas a olhar-me, a esmagar-me, a exalar-te em bafos quentes sobre o meu rosto. É de dia. Desapareces na porta que quebra o branco da parede do corredor. Já devíamos ter pintado essas paredes. Ontem deveríamos ter pintado as paredes de vermelho, mas nada fizemos. Sabíamos que tínhamos de pintar as paredes e arrumar os caixotes com tudos velhos. Mas o saber não tem qualquer poder sobre a acção dos corpos, e o nosso tempo era novamente limitado. Se desenhasse uma elipse na parede, uma elipse que representasse o conceito de tempo, seriam os nossos corpos enrolados um no outro a contornar o desenho. Por vezes apetece-me pintar todas as paredes brancas de vermelho, em vários tons de vermelho, e pintar os túneis de amarelo. Não sei, mas a ausência de cor incomoda-me, as paredes gritam pedidos de toques alucinados, as paredes gritam-me furiosos silêncios de tempos. Hoje, em que os raios de luz entram pela casa, as paredes são mudas. O som da sala infiltra-se no pó que circula no ar, o som de melodias enroladas nos despertares do corpo. Havia momentos em que apetecia matar-te, mas matar-te todas as vezes em que me apetecia matar-te, depois chegavas com uma taça de fruta e creme, montes de creme, e metias-me a fruta na boca como se eu fosse uma criança, eu deixava porque apetecia-me matar-te. Mas matar-te todas as vezes que apetecia-me matar-te. Os momentos eram perfeitos.
Havia no ângulo daquele corpo um certo conforto na estranheza em que se encontrava jogado sobre a mesa, o braço parecia deslocado do corpo, ou o corpo deslocado do braço, por vezes a sensação é de que é tudo deslocado do centro em que as coisas pertencem. O pior que nos pode acontecer é perdermos o centro, a julgar pelas marcas de cereais e iogurtes é tudo uma questão de equilíbrio e balanço intestinal. Eu sempre disse que tudo provinha das vísceras, somos tão viscerais nas nossas acções que precisamos de iogurtes injectados de bifidus e coisinhas para nos regularmos. Sempre pensei que bastava um relógio e que o nosso sentido seria sempre da esquerda para a direita.
O Prêmio Dardos tem certas regras: 1. Aceitar exibir a distinta imagem (que está ao lado direito desta tela). 2. Linkar o blog do qual recebeu o prêmio. 3. Escolher quinze 15 blogs para entregar o "Prêmio Dardos. "
Ele deve ser passado a 15 outros bloggers, e assim sendo, carinhosamente, e agradecendo a todos por partilharem connosco a sua alma e arte, ofereço o Prémio Dardos a: