8 de Fevereiro de 2009

Fénix

Ribombem as hostes ao vento que pela montanha descende, a Fénix adormecida nos séculos de lava, renasce! Águia acutilante no seu pio de asas abertas. Águia que fere o tempo das palavras desmembradas. Águia de bico aguçado imberbe.
Luz, na alvorada disfarçada por um telhado que desfere o horizonte em retalhos de sombras incertas. Serve este renascer pela memória ainda não construída, para que do fogo se purifiquem os sons crepitantes dos dedos encostados nas guitarras. O fogo transformará as chamas em cinzas e delas as palavras renascerão, sujas, imundas, como os olhos de lascívia que as percorrem. Esses vossos olhos que tudo pesam na balança do julgamento discernido.

A Fénix renasce no turbilhão da pele arrepiada, arrependa-se o carrasco que lhe levou a chama num dia que o já não é. Sobraram vestígios, ficarão golpes de garras entesadas nos membros de orgulhos vítreos. Na verdade, é apenas fogo que se consome no ritmo da pena. Quando acabar de novo o tempo deste voo, sucumbirão penas nos lábios cerrados e os sons, ecoarão livres nas montanhas do amanhecer.

Serve este pio poético -ainda enfraquecido -, para que dele, sejam as mais puras melodias a serem ouvidas. Atentai-vos a cada canto soltado ao vento. As vozes querem-se duras como as rochas atiradas no monocórdio dos palcos vazios. E ressaltam, ressaltam, marcando os fios de água abandonados no escuro dos corpos cansados. Há uma luz apagada e o calor ainda emana, a noite alongou-se nas vozes agora cansadas, os corpos cedem lugar ao vazio, um último pio nos olhos abertos.
E renasço.

30 de Novembro de 2008

The Vanishing - Lovesick



(Simplesmente viciante...)

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25 de Novembro de 2008

O tom da voz | II |

Estas inconsistências no discorrer de pensamentos inúteis quando deveria apenas falar-te são cada vez mais frequentes, muitas vezes é ao falar-te que elas ocorrem. Fazes-me ser inconsistente e continuas na tua cadeira com os membros deslocados ou o corpo deslocado e sorris. Não sei como o consegues, juro-te que não sei, mas sorris sempre quando não deverias sorrir, as situações mais estranhas apresentam-se sempre irónicas na tua cabeça. A morte era uma ironia que te fazia mostrar o marfim dos dentes e elevar-te as bochechas aos olhos. Nos momentos em que todos os corpos ausentavam-se e a mente cessava, tu sorrias.
O corpo jazia na penumbra dos choros engolidos a seco, o silêncio espreitava nas covas penetrantes das orbitas dos presentes, profundas, marcadas, tristes, e gritavam saudades daquela cujo frio dilatava a frágil luz verde que, atravessava os pequenos vidros coloridos da parede onde o corpo horizontal ausentava-se. Ausentava-se e cravava-se nas carnes rasgadas que semeavam sangue. No ritmo entorpecido as flores murchavam em decrescendo mudo, marcado pelos soluços contidos de todos os corpos que em uníssono carpiam. O coro de corvos negros sentados, de olhar perdido na cruz gigante que se impunha sobre o medo do pensamento batido. O movimento contrário ao do sentido original do relógio. O movimento das mãos em prece sobre o peito. O murmúrio. E um soluço. As partes sucedem-se em frente e verso, e estes versos eram demasiado deslocados da frente translúcida e borrada. Obscurecidos de dor assim se arrastavam. Eu era dor e o frio do mármore fazia doer-me o corpo. A dor começava no osso esquerdo da perna, depois as pontadas iniciavam-se no joelho e esquecia-me da razão que me levava àquele sítio. As dores eram hereditárias, disseram os médicos quando em miúdo todo o corpo rangia, e a dor, a dor invadia o esqueleto de que nunca tivera memória. O corpo jovem era somente carne esfarrapada contra o cimento, numa queda de bolas rematadas entre o entardecer de gargalhadas infantis. Se pudesse pintar um desses entardeceres, seriam dourados, como o porco de loiça que meteste sobre a mesa-de-cabeceira. O porco de loiça com ar estúpido, e cujos estilhaços apareciam claros na minha mente todas as vezes que olhava para a dita peça decorativa. Talvez nos estilhaços tenha ficado uma silhueta de uma cicatriz de há muito. Talvez, e nada que não esta dor no corpo.

(...)

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12 de Novembro de 2008

O tom da voz | I |

Por vezes é apenas um raio de luz que me desperta, outras vezes é o som da sombra do teu corpo quando na janela os raios nocturnos quebram as frechas. O teu corpo em movimento, ajeitando os cortinados negros para que nenhum raio nos ilumine na noite do nosso sono. Digo do nosso sono, porque o corpo funde-se num abraço pesado, paralisando movimentos já de si escassos. Por vezes, apetece-me tapar-te o nariz para que cesses de respirar em definitivo, apertar-te as narinas e retirar-te o fôlego sempre certo, tão certo quanto o dia que nasce depois de a noite falecer. Mas depois olho-te através do escuro e relembro o teu rosto ainda marcado no espelho que trago no pulso. Nada faço, viro-me para o meu lado e adormeço, depois, o peso do teu corpo em cima de mim, e um olho. Não sei o porquê, mas vejo sempre um olho e depois o outro, como se no focar da vista ainda em repouso, fosse apenas permitido o teu olho castanho. Esfrego os olhos, a vista melhora. Continuas a olhar-me, a esmagar-me, a exalar-te em bafos quentes sobre o meu rosto. É de dia. Desapareces na porta que quebra o branco da parede do corredor. Já devíamos ter pintado essas paredes. Ontem deveríamos ter pintado as paredes de vermelho, mas nada fizemos. Sabíamos que tínhamos de pintar as paredes e arrumar os caixotes com tudos velhos. Mas o saber não tem qualquer poder sobre a acção dos corpos, e o nosso tempo era novamente limitado. Se desenhasse uma elipse na parede, uma elipse que representasse o conceito de tempo, seriam os nossos corpos enrolados um no outro a contornar o desenho. Por vezes apetece-me pintar todas as paredes brancas de vermelho, em vários tons de vermelho, e pintar os túneis de amarelo. Não sei, mas a ausência de cor incomoda-me, as paredes gritam pedidos de toques alucinados, as paredes gritam-me furiosos silêncios de tempos. Hoje, em que os raios de luz entram pela casa, as paredes são mudas. O som da sala infiltra-se no pó que circula no ar, o som de melodias enroladas nos despertares do corpo. Havia momentos em que apetecia matar-te, mas matar-te todas as vezes em que me apetecia matar-te, depois chegavas com uma taça de fruta e creme, montes de creme, e metias-me a fruta na boca como se eu fosse uma criança, eu deixava porque apetecia-me matar-te. Mas matar-te todas as vezes que apetecia-me matar-te. Os momentos eram perfeitos.



Havia no ângulo daquele corpo um certo conforto na estranheza em que se encontrava jogado sobre a mesa, o braço parecia deslocado do corpo, ou o corpo deslocado do braço, por vezes a sensação é de que é tudo deslocado do centro em que as coisas pertencem. O pior que nos pode acontecer é perdermos o centro, a julgar pelas marcas de cereais e iogurtes é tudo uma questão de equilíbrio e balanço intestinal. Eu sempre disse que tudo provinha das vísceras, somos tão viscerais nas nossas acções que precisamos de iogurtes injectados de bifidus e coisinhas para nos regularmos. Sempre pensei que bastava um relógio e que o nosso sentido seria sempre da esquerda para a direita.


(...)

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23 de Outubro de 2008

Prémio Dardos




Antes de mais, um beijinho à Blood Tears por me ter atribuído este selo. Um muito obrigado.

O que é o "Prémio Dardos":"Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, que de alguma forma demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.


O Prêmio Dardos tem certas regras:
1. Aceitar exibir a distinta imagem (que está ao lado direito desta tela).
2. Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.
3. Escolher quinze 15 blogs para entregar o "Prêmio Dardos. "

Ele deve ser passado a 15 outros bloggers, e assim sendo, carinhosamente, e agradecendo a todos por partilharem connosco a sua alma e arte, ofereço o Prémio Dardos a:


Chicago 1900

Desalinho de Emoções

Fissuras nas Amarguras

Fragmento

Goth Land & Lucipher's Kingdom

Helenices

In...confidências

Memoirs de Narcisse

Narciso

Nómada Onírico

O Talho

Palavras Perdidas

Roar to Silence

Sepulcro das Palavras

The Twilight Joe