Erótica
Para B.
As sombras luciluziam vacilantes nas paredes íntimas do copo de vinho que tinha na mão. Vermelho - Sangue. Que consumia-me o dentro, no nervoso sobejo de torrentes existenciais de desejo. As sombras. As sombras caiam oscilantes no vazio da cama pelo negro coberta. Revi-me mentalmente antecipando os gestos que derramaria sobre o teu corpo, antecipando-me a ti na tua demora de menina transformada em mulher. Anunciava-se longa a espera na ansiedade do pensamento sabido, compulsivo de gestos imparáveis. Incontáveis eram os minutos repetidos na noite sorrateira, matreira, na sombra que se alonga no dia renascido em velas que principiavam o seu caminho finito, moroso, dissonante. Derretendo os cheiros de essências fabricadas, abafantes das violetas que espalhei pelo quarto. Sempre vasos, e nunca ramos. A perda era-te familiar, em mortes que te foram apresentadas por sorrisos galantes. Por isso detestavas ramos de flores. Cheiravam a morte. Sabiam a pó.
A penumbra do quarto era vida que me envolvia num aperto de aconchegos estrelares, em aconchegos de nuvens colectoras do teu corpo. A tua demora era incerta nos aromas viáticos derramados pela boca ofegante. Abençoado liquido, que começava a obscurecer-me a mente embalada pelo ruído de fundo que saía do computador. Na tua incerteza e para que a mente não se feche à clareza necessária para reter-te, decido verificar os e-mails recebidos. Entre pdfs de auto-ajuda e vídeos repetidos até à exaustão de outros rostos, havia um e-mail teu. Uma foto tua, de olhos verdes esbugalhados e bochechas cheias de ar. «Não acredito que estás a ver essa foto», dizias tu enquanto te sentavas na cama. Permite-me ao congelamento desse momento, permite-me esta foto mental gravada na alma: Sentaras-te na berma da cama, enquanto passavas as mãos cheias de creme pelas pernas. Começavas pelo tornozelo e acabavas nas coxas. Brancas. Que contrastavam com o negro dos boxers pretos rendilhados. As tuas mãos de unhas pintadas de bordeuax, repetiam o gesto muito lentamente, massajando as pequeninas pernas que te compõe. O teu corpo coberto por uma camisa de noite transparente, reveladora do teu colo velado por flores bordadas - pequenas rosas que cobriam os botões rosáceos dos teus seios, era uma tentação sucumbida ao meu desejo. Enquanto falavas a madeixa loira de cabelo que te caia pelo rosto, saltitava entre os teus olhos, tocando as maçãs alvas que formavam um sorriso espelhado nos olhos verdes. Permite fixar-te assim, nessa luz de penumbra que te brilhava na pele.
O desejo quando flui nas veias do corpo em fogo ardente, esfria apenas quando em contacto com o objecto que o aquece. O desejo retira a razão da mente inflamada por pensamentos discordantes. No tempo, e no curto intervalo em que se dão as ligações entre o vazio e a ideia, a chama acende-se, inflamando o inflamável espaço temporal em que estas sucedem. O meu desejo era já chama centenária, no brilho alterado dos meus olhos.
Demoro-me a apreciar-te no teu complexo conjunto de mulher, como o vinho que degusto na boca e que ainda se encontra nas minhas mãos. Ao acabar o copo e com isto a pausa em que te apreciava, dirijo-me ao chamamento do teu corpo. Apesar da tua fragilidade de pequenina princesa, o corpo gritava essências felinas, em apelos íntimos, serenos, desvanecidos na neblina do meu peito.
Ajoelhei-me perante a pele que ardia na mente. Ajoelhei-me. No momento em que tropecei na tua essência. Não sabia ainda o que ela encerrava, o que encerravas no brilho dos teus olhos. Se o tivesse sabido a entrega seria imediata e a loucura o refúgio certo. A loucura. Que sempre veio nos momentos em que os pavios se esgotaram. A loucura, que apaziguaste num só gesto deixado por dois dedos num dos lábios. Ajoelhei-me em frente à tua alma e com os braços do sentir, agarrei-te. O teu pé repousava nas minhas mãos, e ao aproximá-lo dos meus lábios o silêncio fez-se anunciar. Beijei-te o pé. Mordeste o lábio. As minhas mãos deslizavam pela seda das tuas pernas, enquanto as abrias lentamente. Os músculos mexiam-se vagarosos nas mãos que te percorriam. Levantei a perna no vazio da penumbra, beijei-te a parte detrás do joelho. Soltaste um gemido tímido. Continuei a desbravar o desejo do teu corpo, emergindo das sombras ao encontro do teu sexo. Húmido. Confrontava o meu toque, aquecendo-o suavemente. Depositei um beijo sobre o teu cantinho resguardado pelos boxers. Com as pontas dos dedos retirei-os das tuas coxas. Depositei mais um beijo, no calor que emanavas. Estremeceste. Com a ponta da língua percorro o teu sexo, em movimentos lentos. Num espasmo momentâneo, apertas as coxas contra o meu rosto no momento em que te mordo. Gemes novamente, mas agora de dor. Detenho-me um pouco, e ao recuperar o fôlego, subo pela tua barriguinha branca, ao beijar-te o umbigo ris com as cócegas que a barba provocou. Atrevo-me a galgar os teus seios com beijos dados no tecido transparente que os cobrem. Com os dentes retiro as alças dos teus ombros pintalgados de sardas, expondo os teus seios fartos. Beijo-os e mordisco os rosados mamilos. Na minha ânsia de beijar-te o corpo, lanço-me ao teu pescoço e beijo-o freneticamente, alternando beijos com pequenas dentadinhas que se estendem aos lóbulos das orelhas. Tu começas a contorcer o corpo, sinto as tuas pernas a rodearem-me a cintura. Ao olhar-te nos olhos, não pude deixar de vislumbrar-me no reflexo dos teus verdes olhos. Dou-te um beijo nos lábios. Sentido. Apaixonado. Perdido. «Linda» sussurei eu, no teu ouvido. Tu apertaste-me num abraço de membros maternais. Deixei-os envolverem-me por uns segundos, até que os atei à cama. Imóvel. Quieta. Minha doce pequenina.
A tua pele branca exalava um perfume a pêssego. Queria sentir-te. Queria penetrar nos poros do teu corpo. Ser a pele que te envolve, pois só assim seria o receptáculo da tua essência. Envenenar-me contigo. Afogar-me. Afogar-me no teu caminho de pétalas douradas. Pele com pele fundida. Retiro a t-shirt. Deito-me sobre o teu corpo e sinto a tua vibração. Delongo-me no teu pescoço, no teu queixo, nos seios…os seios que acaricio e beijo, sempre. O membro encontrava-se ávido do seu abrigo, e ao roçar no teu sexo desnudo a sua avidez aumentou. Retiro as calças e os boxers. Deito-me nu em ti deito-me. Pele na pele. Carne na carne. O meu desejo ensandecia-me as têmporas, mas havia decidido ir com calma. «Penetra-me» disseste tu muito baixinho. Perante o pedido de uma princesa, não havia negação possível. Beijei-te os lábios e enterrei-me em ti de uma só vez. Gemeste. Apertaste-me a cintura com as pernas. Eu enterrei-me mais, e comecei a dança dos corpos efusivos, carentes, gritantes. Dentro e fora, dentro e fora, aumentando o ritmo em cada estocada. O meu corpo continuava a tocar-te. O rosto roçava o teu, as respirações faziam-se sentir nos pescoços de ambos. Os teus gemidos aumentavam com a intensidade do meu ritmo. Dentro do teu corpo, no teu canto húmido e quente. Dentro de ti, cobrindo-te o ventre. Dentro o desejo depositado. Dentro, e agora em ti. Vieras preencher a ausência sentida nos dias que se arrastavam na luz que tudo transformava. Ficaras, quando não te havia pedido nada. Sabia que não podia pedir-te as raízes onde havias fincado a tua origem, no entanto cresceras em mim. Dentro fora, dentro fora. Havia encerrado as portas e engolido a chave no tempo. Havia encerrado os poros ao cerco das nuvens. Até ao dia em que tropecei em ti. Resisti-te por muito pouco tempo, não tenho a certeza se resisti-te alguma vez, desde a primeira. Dentro fora, dentro fora. Sinto por ti muito mais do que aquilo que te digo. Sinto muito mais a crescer em mim. Sinto. Orgasmo. No teu ventre que espera ser preenchido. Fico sobre o teu corpo em repouso a ouvir-te respirar. «Solta-me». Os teus braços estavam marcados pela fita de cetim com que te prendi os pulsos. Abraçaste-me o corpo. Beijaste-me o rosto, depois os lábios. Soltas-te o teu corpo do meu. Sorriste-me com os olhos, aconchegaste-te ao meu peito e adormeceste.
Vieras por fim preencher-me a ausência no peito. Vieras por fim ser o peso dentro e sobre o meu peito. Vieras.
Etiquetas: Erótica


15 Comentários:
ai sabrina...não saias mais vezes de casa não...levas cas vieiras no focinho
Queredes matar-me com o calor? O_O
O Estio é uma estação muito difícil para os gógós... :)
Dark kiss.
Sempre aquele "veneno". O de pele com pele e carne com carne. Sempre sempre aquele "veneno". Que nos percorre e não passa...
*a criatura afasta-se enquanto resmunga com o seu próprio fado. E a rua segue a sua vida como se nada se tivesse passado...*
Ai filha, olha, gostei muito de te ler, mas isto é extenso e as minhas vistas dão de si de perturbadas...haha!
Beijinho em ti.
*
Lord, o estio e não só.
:P
escabroso,
o veneno...sempre sempre sempre :)
P.s. Obrigado pela visita
natalie,
sua virolha...muda de óculos :P
No Estio os outros cheiram mais... a outros.
Ser a pele que te envolve, pois só assim seria o receptáculo da tua essência.
Li tudo com esta música a martelar-me a cabeça. Gostei muito. Desculpa a ousadia de colocar uma banda sonora na tua escrita...
"I'm breathing you in
just like the morning air,
and I'm wrapping you around
just like a skin to wear."
kiss*
Há rosto nas palavras, há profundidades na inquietude. Gestos empolgados de intimidades
Um manancial de emoções emergem, ao ler os teus textos... Gostei muito, obrigada por partilhares... :)
darkviolet,
que rosto vês nas minhas palavras?
kiss*
blood tears,
obrigado por aqui passares :)
kiss*
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