in Borderline
(...)
Há sangue!, cansado de um corpo. Por vezes penso que a agulha de crochet devia ter rebentado a frágil bolha que me retinha. Um toque de linha desmanchada e torcida. E tudo. Vazio. Por vezes, que são todas as vezes em que no cheiro a vida havia uma presença. A que cheira a vida quando esta nasce? Ainda me lembro do cheiro a morte quando ela chega, mas a vida, a que cheira a vida? A que cheira a vida, quando os narizes estão cheios de branco? O meu branco. O branco da pele. O branco dos riscos alinhados no tampo de uma sanita, numa casa de banho de uma discoteca qualquer. Os riscos deste desenho emoldurado. Protegido do tempo que apenas passa no vidro.
(...)
Por momentos, sempre momentos e nunca instantes. Ausência, que viria sempre. O sempre que nada é que apenas: O sempre. Não o sempre dos outros, mas a sombra da sombra do meu contorno diluído na noite veluda. Mentira! O sempre era uma mentira apresentada em folhas de papel manchadas. Folhas de ausências caídas nos rostos níveos. Uma carta depois outra, letra a letra palavras formadas preenchendo ilusões desfiguradas. Elevaram-se os sonhos em dias longínquos de Outono. Na realidade, as folhas amarelaram com o sol do abandono De todos os tempos surgido. Ainda havia Outono, nas mãos fechadas sobre os olhos abertos. Folhas amarelas, árvores circulares e nuvens.
in Borderline de Catarina Silva


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