2 de Setembro de 2008

in Borderline (II)

As palavras são hoje mais leves do que a pena apontada ao pombo espetado no grilhão urbano trespassado no passado granítico. O peso do som anula-se, a pena caí em frente aos olhos famélicos, tudo é de novo branco e nem por isso mais limpo; tudo é de novo imagem descomposta numa composição de rabiscos infantis. E há o sangue. Um quadrado de casa em feltro, e uma árvore. O sol nasce muito mais tarde no branco rabiscado, e sorri, e tem óculos de sol, e cabelos, e raios. A lua surge, em forma cuneiforme, cinzenta, coexistindo com o sol que ri. A lua chora. E há os pais. Muito maiores que todo o resto; da altura da importância que os sentimos. Houve uma palavra desenhada num sonho esfumado. Um sonho feito de açúcar cor-de-rosa. Houve uma palavra de silêncio que guardei. Houve. Porque guardei palavras se elas significam tão pouco? Se são atiradas como berlindes multicolores vidrados num pátio. Há também o sempre. Não me posso esquecer do sempre. O sempre que dura até que o próximo encontro traga um novo sempre, acabando o que nunca foi começado: a velhice de chinelos gastos e dentes inexistentes. Disse um dia, e volto a repetir: Não quero mais palavras. Não as quero. Mas os cadernos enchiam-se compulsivamente. Há sangue. E um vício nascido num vão de escada imundo.

(...)

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1 Comentários:

Blogger Blood Tears disse...

Uma vez aberta a via às palavras, são impossíveis de deter... :) E o eterno renovável sempre.....Adorei, mais uma vez...
Obrigada por teres passado no meu blog tb....

Blood Kisses

02 Setembro, 2008  

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